Como eu reagiria aos efeitos do Coronavirus se tivesse APS?

O Planejamento Pego de Surpresa

Estamos passando por um momento muito peculiar e turbulento para a vida de todos, literalmente todos. O mundo está de quarentena devido ao COVID-19. Alguns governos buscam reduzir os impactos na cadeia de suprimentos, mas a realidade é que as indústrias estão sendo bem impactadas. Nas conversas com gestores nas últimas semanas, todos estão tomando as providências sanitárias possíveis, cada um dentro do seu contexto. Contudo, uma série de decisões surgem, como:

  • Devo dar férias coletivas? Se eu der, quais serão os impactos financeiros e de nível de serviço?
  • Alguns fornecedores já me informaram que vão interromper o abastecimento. Que impacto a não chegada de matérias-primas nestas próximas semanas terá na minha produção?
  • Vai adiantar eu dar férias coletivas para todos os centros produtivos ao mesmo tempo pelo mesmo período ou seria melhor distribuir? Qual a diferença para as minhas entregas?
  • Estamos com uma medida de diminuir o volume de pessoas por centro produtivo para reduzir riscos de contágio. Que impacto isso gera na minha produtividade?

Essas são apenas algumas das questões que já são habituais em cenários de volatilidade de demanda ou capacidade, porém nesse caso todas ocorrem juntas e com grande intensidade. É claro que há um fator imponderável que é a incerteza, a qual atrapalha decisões que precisam partir de premissas, porém é justamente nessas horas que o planejamento é crucial para driblar os imprevistos e minimizar perdas. E, nesse ponto, deve-se tomar em conta a assertividade, assim como a velocidade da tomada de decisão. Uma mudança rápida exige uma resposta rápida.

O APS para a Reação

É já bem difundido que grandes resultados podem ser obtidos em cenários estáveis com a implantação de uma solução APS através das regras de programação, como redução de setups, tempos de espera, estoques e lead times. Porém muitos não valorizam o suficiente uma das principais vantagens que um APS tem em cenários instáveis de volatilidade: a agilidade de reprogramação.

Poder responder rapidamente àquelas questões acima, e com assertividade, neste mês de Março de 2020 é um diferencial para uma empresa que pode dar mais resultados do que o último ano inteiro de ganhos incrementais.

Para ilustrar brevemente algumas possibilidades de simulações possíveis que poderiam ser feitas através do Opcenter Preactor APS, vamos imaginar que você é um programador do PPCP e se encontra no cenário abaixo (caso você não compreenda como um gráfico de Gantt em uma solução APS funciona, confira este post aqui).

Cenário Original Pré-Coronavírus

Aqui temos um cenário de uma semana de volume de produção programada nesta fábrica. Nota-se que atrasos estão ocorrendo em ordens que estão escorregando para a semana que vem (os espaços hachurados em azul são o fim-de-semana que não há turno neste exemplo, assim como as OPs marcadas de vermelho são as que serão entregues em atraso).

Porém agora os clientes começaram a se assustar com os acontecimentos e estão cancelando os pedidos (ou seu forecast diminuiu se você é make-to-stock), e consequentemente uma série de Ordens de Produção (OP) foram canceladas. Em poucos cliques atualizamos estas OPs, que deixam o nosso quadro de programação, assim como ajustamos o cenário para preencher as sobras de capacidade que as OPs antes estavam consumindo, o que gera o cenário abaixo.

Cenário Original com as Ordens de Produção Canceladas

Como uma ociosidade muito grande surgiu a partir da quinta-feira, podemos cogitar em dar uma folga para a produção nos dois últimos dias da semana. Vamos inserir rapidamente esta folga atualizando os calendários dos recursos.

Inserindo uma Folga em função do cancelamento das OPs

Só visualmente já podemos notar abaixo que dois dias de folga geraram um volume considerável de atrasos.

A folga de dois dias inserida gerou mais atrasos

Para não prejudicar demais as entregas, vamos criar um cenário com um dia de folga apenas e comparar as variações entre os cenários para começar a tomar algumas decisões.

Já a folga de um dia gerou menos atrasos

Ao comparar os cenários ao longo das situações, vemos já na comparação do cenário 1 com o 2 o impacto de receita que os cancelamentos geraram. Logo, como limitamos a previsão de receitas somente até sexta-feira nesta visão, conseguimos enxergar já o impacto em faturamento que atrasos podem gerar neste período, que no caso de dois dias de folga é ainda mais significativo. Outra análise interessante é ver como fica o carregamento em cada um dos cenários (última coluna do relatório abaixo), a fim de não deixar a fábrica nem sobrecarregada, nem ociosa.

Para fechar o nosso dia, recebemos uma ligação de um fornecedor informando que a entrega de uma matéria-prima prevista para esta semana só chegará semana que vem.

Atraso na chegada de uma Ordem de Compra de uma Matéria-Prima

Atualizando o cenário, conseguimos ver os impactos que os atrasos dos fornecedores causarão na nossa produção. Neste caso, foi somente um pedido que passou a atrasar, como se vê abaixo. À medida que as situações vão surgindo podemos aprofundar as análises, definir horizontes e setores para avaliação, entre diversas outras formas de embasar uma decisão.

Análise filtrada por OPs que passaram a atrasar a partir do atraso do fornecedor

Essas análises são certamente só o início de uma série de avaliações. Dependendo dos objetivos atuais de cada empresa, um cenário pode ser melhor que o outro. E é isso que é muito legal no APS, pois existe a premissa de que os objetivos são dinâmicos pois os cenários são muito dinâmicos e a melhor maneira de resolver um caso hoje pode ser diferente do que foi ontem.

Esperamos que esta fase conturbada passe logo e que as indústrias fiquem cada vez mais afiadas para planejar e re-planejar com agilidade e robustez.

Marcel Meyer
Engenheiro da cadeia logística pelo Grenoble INP e engenheiro de produção pela UFRGS. Possui 6 anos de experiência em atividades de consultoria relacionados a Lean Manufacturing, sistemas APS e Gestão de Conhecimento, inclusive em projetos internacionais. Acredita na complementariedade das disciplinas para a formação de um bom profissional, por isso é apaixonado por aprender tudo aquilo que ainda não sabe. É casado com as disciplinas exatas, mas também tem amantes. A música, a filosofia, o cinema, a gastronomia e as viagens que o digam. Confia no construtivismo social para o progresso da humanidade e sonha em algum dia ver uma educação qualificada disponível para todos.
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